sábado, 1 de julho de 2017

Vôo


A vela
Vale-se do vento
E vai...
 
A vida 
Vale-se do tempo
E vai...

A ave
Suave, levitando leve,
Vai...

Eu, nesse único vôo,
Em direção ao nada,
Vou...

Arrulhos



A rolinha rola pela manhã,
Rolinhando e arrulhando,
Como um carrinho de rolimã
Em que o menino desce correndo
Pela rampa das cores do arco-íris.

E avoando pelos ventos do dia
Flutua como bola de sabão
E se perde no infinito da galhagem.
Depois volta volupiando nos raios de sol. 

E pousa.

Pensativa, vem vindo,
Passo a passo,
No compasso do tempo,
Pisando leve como pena,
Ciscado na poeira do chão .

É assim vai beliscando
Insetos e sementes da vida.
Perto de mim, voa pro ninho...
E se aninha no meu peito,
Arrulhando o canto triste da saudade...

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A dor da idade



Na   minha   idade,
Olho    para    trás,
Me dói a  saudade
Que o tempo  traz.

Esse tempo ingrato
Que, lento, me leva,
Rasga meu  retrato
E da  luz  faz  treva.

Dói,  e   como   dói
Essa  mó que moe
Os  cacos da  vida.

Dói  dentro  de mim
Dor da morte, enfim
A  dor   mais  doída.




Marasmo



No meu pensamento a vida anda,
E  nada   no  Canal  de   Camburi,
Enquanto só, no canto da varanda,
Apenas   o    silêncio   me    sorri.

Rajadas de chuva pintam  a noite
Cinzenta,  na  Ponta   do Tubarão.
Venta  um  vento  forte  em açoite,
No meu rosto e no  meu  coração.

Relâmpagos  clareiam  mais  e   mais
As ondas brancas que rolam na praia
E se quebram no meu peito...meu cais.

Esse  cais   onde  agora   me  ponho:
Cais-solidão. Deus! Faça que não caiam
Um  por um, afogados, meus sonhos.

O Canto da Tabuada



              Depois de um longo tempo em silêncio, retorno, trazendo no colo, pra vocês, buquês com flores de saudades, desenganos, ainda viçosas, e outras de sonhos, já murchas.

É assim que conta as contas dos minutos, o poeta Ademar Tavares em seu Canto da Tabuada.


A sala... A lousa trincada em meio,
A mestra... O estudo da meninada...
Batia o sino para o recreio,
Soava o canto da tabuada:

Um e um, dois
Dois e um, três
Três e um, quatro
Quatro e dois, seis...

Como vai longe... Passam-se os anos,
Morrem-me os sonhos, chega a geada...
E eu vou contando os meus desenganos,
Como no canto da tabuada:

Um e um, dois
Dois e um, três
Três e um, quatro
Quatro e dois, seis...

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Eterno infinito

Alucinado pela dor,
Lanço meu grito
Da linha do equador,
Que ecoa no infinito

Já não sinto a vida,
Já não há espaço,
Já não há subida,
Nesses meus passos.

Sinto que desço o morro
Da grande bola do mundo,
Sinto que quase morro
Nesse silêncio profundo.

Não restam nem rastros,
Nem cacos de sonhos.
Apenas, delirando, me arrasto,
Nesse precipício medonho.

Eu, uma sombra cambaleante,
E desorientada, tropico,
Meio tonto, na linha distante,
Do Capricórnio, meu trópico.

E num gesto derradeiro,
A vida cai de mim,
E rola no desempenhadeiro
Do universo sem fim.





domingo, 15 de março de 2015

A Amazônia e o Tapajós dos meus sonhos

Fui menino em outras terras
Bem longe, noutra era.
Tive meus sonhos
Onde ainda me ponho:
Sonhei forte
Voando do Sul pro Norte,
Cavalguei pássaros em tropel
Como o Pequeno Príncipe pelo céu.
Sobrevoei toda a floresta
Onde a natureza se manifesta,
Não me importando se era longe ou perto;
Importava que o lugar não fosse deserto.

E não parei de voar,
E não parei de sonhar...

Virei trovão e corisco,
Virei Pajé e Tupã
Dos curumins e cunhantãs.
Virei São Francisco
Pra ser irmão da Lua e do Sol,
Pra salvar os peixes do anzol,
Pra conversar com os animais-animais,
Já que não me ouviam os homens-animais.

Então, não parei de voar,
E não parei de sonhar...

Virei chuva no estio
Pra aumentar a caudal do rio,
Pra dar de beber aos bichos e matas,
Pra apagar o fogo das queimadas.
Olha! Eu fiz o diabo.
Fiz de uma vassoura no cabo
Um aspirador de fumaça,
Que purifica o ar por onde passa.
Fiz de uma bomba de bicicleta
Girando as penas da peteca,
Uma máquina de garimpo
Onde o ouro e a água saem limpos, limpos.

E, viajando pelo mundo,
Me fiz vaga-lume e vagabundo,
Na fantasia de sonhar,
Na teimosia de inventar.

Um dia, num belo dia,
Nessa minha mania,
Peguei o livro "Meu Tesouro",
Bem bonito, cor de ouro,
Com o mapa do Brasil na capa,
Onde de cada Estado tinha um mapa.
Nesse dia, o mapa era o do Pará.
E tinha os versos mais bonitos do bê-a-bá:

"Quem vai ao Pará parou,
Bebeu açaí ficou".

Aí, danei a sonhar de contente
E queria ver o guaraná em semente
Ouvir o grito do sapo-intanha,
Sentir o gosto doce da castanha.

E feito louco eu saí
Pra beber a poção mágica do açaí.

Na imensidão do meu quintal pequenino,
Bati asas no meu sonho de menino
E voei até o Estado do Pará,
E não queria mais sair de lá.
Com palitos de fósforo, construí pontes,
E naveguei os rios da foz à fonte.
Cavalguei o boto e a sucuri,
Levei corrida de saci,
Me encantei com o canto da uiara,
Com coisa que nunca sonhara.
Naveguei o Amazonas imenso,
Que nem cabe onde penso.
Naveguei o Tapajós de águas claras,
Verdes, puras, águas raras.
Andei por todas as praias,
Fiz serenatas e piracaias,
Vi a piracema do jaraqui
No Lago de Mapiri.
Fui a zona do garimpo,
Tudo verde, tudo limpo!
A bordo das voadeiras,
Eu subi as corredeiras
Do Alto Tapajós e afluentes,
Cheguei à verdadeira nascente.
Atravessei a Cachoeira da Perdição,
Subi a Cachoeira da Ilusão,
Naveguei na Cachoeira Labirinto
E me banhei no Rio Cristalino.

Descobri a Serra do Cachimbo:
O olho d'água mais límpido,
Como o olho d'água da esperança
Que nasce nos olhos das crianças.

Por tudo isso me aventurei,
Menino-pirata, menino-rei,
Num barquinha de papel,
Navegando o rio como se navegasse o céu.

Na Serra Encantada, me encantei,
E da água cristalina me embriaguei.
Aí, o tempo de menino passou
E o sonho desse tempo...voou...

E a magia do sonho foi tanta
Que o olho d'água que me encanta,
Transformou-se em olho de tufão
E transportou-me, gente grande, pra esse chão.

Vim ao Pará, parei,
Bebi açaí, fiquei.

E agora! Cadê a fauna e a flora ?
Cadê a água verde do rio ? E agora ?
O lugar é o mesmo do meu sonho,
Mas não é mais igual ao do meu sonho.

Será que antigamente sonhei errado ?
E pra não ficar magoado,
Eu lavo as minhas mágoas 
No doce encontro das águas.

E, de novo, me faço menino,
E, abraçado ao destino,
Me ponho a cismar no cais,
E, em sonho, eu sonho mais:

Sonho que toda gente ainda é criança
E pode fazer da vida esperança.
E , então, quem me dera !
Refazer aqui tudo como era...

E a meninada em mutirão,
Com tintas e pincéis na mão,
Pinta de verde, da fonte até a foz, 
As águas imensas do Tapajós.