quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Meu Rio Doce


O  meu  Rio  Doce  desce
Docemente   na    tarde
Como se as águas dessem
Sussurros  de   saudade.

No  acalanto  das  águas,
Meu  Rio  Doce, cantando,
Leva  todas  as   mágoas
Que em mim vão boiando.

A   derradeira   luz
Se  entorna,  reluz
Nesse meu rio que desce,

Desce lento  e  doce
Como  se  ele  fosse 
A minha própria prece.

 




Porto - por-de-sol


Navios enormes
Silentes dormem
Na noite que vai
Deitando no cais,

E os guindastes,
Imensas hastes,
Levantam braços
Negros de aço,

Içando na tarde
O sol que arde
Vermelho-verão.

E, num movimento,
O guindaste lento
Põe o sol no porão.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Nau da paz

Um   navio   nasce   no  fim   do   mar
E vem com o céu suspenso no mastro,
Em  busca  de   um porto pra  chegar,
Pisando as ondas, riscando os astros;

E,  enorme,  maior   que  o  espaço,
Navega nos meus olhos lentamente
Como  um  sonho cinzento, de aço,
Que me  fere  a  lucidez  da  mente.

E  no  delírio  bom de um momento,
Vejo,  entre  o  mar  e o firmamento,
Uma   nau    abarrotada    de    paz;

Não vem da guerra, vem da esperança,
E, em vez de  guerreiros, traz  crianças,
Para  ancorar  na  Terra:  imenso   cais.

Dia de Natal

No  Natal,  às  vezes  penso:
Quanto vinho, quanta  fome!
Terá  Deus  perdido o senso,
E pecado ao nascer homem?

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ovo-Quase poema



Num esforço imenso
Eu penso,
Peno e penso
No que valeu a pena
Esta vida,
Este dia,
Esta noite,
E se vale a pena
Este momento.


Mais que doida
A vida é doída,
E a dor enquanto dói
Me roendo
Me moendo 
É como redemoinho,
No vento e nas águas,
Como serpente no ninho
De espinhos e mágoas.

A dor, de repente,
Me põe em transe
E em metamorfose,
E viro meio ave,
Meio gente,
E me sinto parindo este quase poema,
Como um ovo no cu da ema.
Credo em Cruz!
Como um ovo no cu da avestruz.

O pescador do Rio Tapajós



De  tarde, em cima  do  cais, a  sós
O pescador, na margem do Tapajós
Lança  o  anzol  até  onde  alcança
E  sente o beliscar das lembranças.

Cada  vez mais,  tesa-lhe  a  linha
Onde  o   horizonte   se    alinha :
É  o   peixe  da  saudade,  vadio,
Puxando o anzol,mordendo macio.

De  repente,  o  caniço  se  curva
E seus olhos molhados se turvam
Ante  o  peixe  que  brilha  no   ar.

E   então,  no  ofício  da  pescaria,
O pescador vê que pesca a poesia
No   rio   imenso   do   seu   olhar.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Hoje de manhã


Hoje de manhã,
Meu quarto se encheu de sol
Que teceu no lençol
Seu corpo.

Hoje de manhã,
Meu quarto se encheu de brisa
Feito a sua mão que alisa
Meu corpo.

Hoje de manhã,
Meu quarto se encheu de paz
Feito a vela branca que me traz
Ao seu porto.

Hoje de manhã,
Você me encheu de saudade
Feito o mar que invade
Meu porto.